Resenha: Kotonoha no Niwa – Uma história de amor, poesia e chuva

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Quando falamos de Kotonoha no Niwa, imediatamente lembramos daquele filme que nos toca profundamente, tanto no seu visual quanto nos sentimentos que o roteiro nos passa. É uma história que utiliza da natureza, literatura e o cotidiano de duas pessoas que não estão passando por situações tão atipicas assim, para nos comover e por vezes fazer que nos identifiquemos com o que nos é apresentado. Kotonoha é uma daquelas obras que eu chamo de completa, e quem já acompanha meu blog entende o que quero dizer com isso. Para os recém chegados, pense em algo que em seu interior, é redondo. Hoje eu vou resenhar a bélissima adaptação em mangá desta obra cinematográfica e mostrar novamente que a adaptação inversa também teu seu brilho.

Gostaria que ao longo desta leitura, vocês não pensassem em comparar as duas obras. Elas são frutos da mesma árvore, caíram perto uma da outra e na mesma época, mas tem sabores bem distintos e apaixonantes.

Título: 言の葉の庭 / O jardim das palavras
Gêneros: Drama, psicológico, romance, seinen, slice of life
Roteiro: Shinkai Makoto
Ilustrador(a): Motohashi Midori
Ano: 2013
Editora: Kodansha
Serializado em: Afternoon
Licenciado no Brasil? Sim
Editora Brasileira: Newpop
Preço: R$ 16,00

Antes de entrarmos no mundo de Kotonoha no Niwa, temos que entender o mundo das palavras. Muitos sabem, muitos não. Palavras são coisas irreversíveis, nem mesmo as palavras de arrependimento podem ser suficientes para curar certas feridas. Palavras podem ser lindas, gostosas, venenosas, traiçoeiras, falsas. Palavras são fundamentais nessa história, já que o autor utilizou como base um poema Tanka.

Vamos pausar aqui e falar sobre isso! Tanka é um tipo de estrutura poética característica do Japão e significa ‘poema curto’ e é formado por trinta e uma sílabas em versos de 5 – 7 – 5 – 7 – 7 respectivamente. Este tipo de estrutura se originou da poesia waka, a poesia aristocrática. Essa estrutura poética foi muito utilizada entre os séculos VI e VIII no Japão e existem mais de quatro mil poemas nesta forma. Quem quiser pode se divertir pesquisando isso mais a fundo, já eu particularmente tenho pânico de estrutura poética, mas não vamos ir lá, vamos seguir com a resenha!

Sabendo que palavras são como flechas (se preferir esse dizer), e que a poesia é um jogo de palavras e ainda mais, que antigamente no Japão (até hoje) é uma forma de falar linda em um código maravilhoso e que era muito utilizada (se você queria aquela moça, tinha que caprichar num cortejo poético também).

Então basicamente Kotonoha no Niwa é sobre Takao Akizuki, um colegial que na estação de chuvas cabula aula pela manhã (apenas se chove) e a misteriosa mulher que ele encontra em um jardim público, que se chama Yukari Yukino. Akizuki tem uma forte ambição em se tornar um sapateiro e pratica no jardim seus desenhos, mas para sua surpresa esse ano uma outra pessoa está no local que costuma utilizar, e esta mulher que permanece misteriosa para ele, com sua cerveja e chocolates, vai mudar sua vida.
No primeiro encontro deles, acontece aquele típico desconforto entre dois seres humanos que não se conhecem, apesar de Akizuki achar que já a viu antes e Yukari não negar exatamente. É nesse primeiro encontro que ela solta um trechinho de um Tanka e este Tanka leva ao resto da história.

“Como um vago trovão,
Nublado…?
Trazendo chuva…
Me faz companhia?”

Sem entender a mensagem por trás disso, Akizuki segue os dias percebendo que a atração pela mulher no jardim continua a crescer, assim como seu empenho em fazer sapatos. Seu sonho de ser um sapateiro tem origem com a mãe que é solteira e assim, solitária. Pra fazer ela sorrir, ele achou que um bom sapato serviria como um tipo de consolo e foi assim que ele foi se apaixonando por sapatos, pelo que mostra, apesar dele criar para si, também gosta muito dos sapatos femininos.

A relação dele com a professora vai se tornando algo muito especial para os dois. Ambos anseiam pela chuva matinal para poderem se encontrar naquele pedacinho do mundo onde nada mais que amor por sapatos e uma cerveja e chocolate fazem diferença, mas a estação de chuvas termina e com ela vem as férias de verão e a relação deles deixa de existir fisicamente, apesar de Akizuki pensar muito na mulher do jardim e tornar o sapato que está fazendo, algo para ela. Devido ao incentivo dela e sua sede de vontade, Akizuki consegue trabalhar bastante e fazer até um curso de confecção de sapatos, uma das partes da história que também acho importante, porque isso passa aquela mensagem básica sobre correr atrás do que se quer e ser recompensado pelo seu esforço. Uma das coisas boas da vida é quando tu da duro por alguma coisa que quer muito e isso retorna pra ti, é gratificante, faz bem pro ser humano e nessa história falamos muito sobre trabalho, gratificação, sensação de bem estar emocional e físico. Apesar de tudo, Akizuki tem uns problemas na escola pela constante falta nas aulas matinais e notas baixas pela falta de interesse na escola. Isso mostra que apesar de podermos voar em nossos sonhos e desejos secretos, vamos ser sempre martelados pelas exigências padrões da sociedade. Estudar faz parte da vida e isso me lembra da minha mãe me dizendo algo como “primeiro se faz o que se tem que fazer, depois o que se quer”.

Gente, Kotohona não é uma leitura complexa, não tem muito que discursar sobre ela, mas ela é cheia de sentimentos que podem oferecer complexidade para o leitor e tudo isso devido a bagagem emocional dele. Já falamos dessas bagagens culturais e emocionais em resenhas passadas, mas eu também farei um post só sobre isso uma hora.

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O grande ápice dessa história, todos que já conheceram o filme tiveram o prazer de ver o mesmo acontece, a história é super mega fiel e super mega boa. Lembram que eu disse que apesar de serem frutos da mesma arvore, elas tem sabores distintos? Então, o mangá do Kotonoha pra mim tem uma aproximação muito mais íntima, acho que por não ter aquele show de visual, me deu uma sensação de conforto e proximidade com a obra. Quando eu vi o filme achei bom e lindo, mas acho que a beleza visual dele ofuscou um pouquinho do que ele quer passar. Pensem aí com vocês, o que a chuva simboliza, o que a chegada do verão quer dizer, o que aquele jardim representa? O que motiva vocês a ler essa obra mesmo depois de ter visto o filme? Ou quem sabe, experimentar pela primeira vez? O mangá vai mexer com os seus sentidos também, mas de modo diferente e deveras inebriante também.

Como sempre, esses textos mostram a minha opinião de forma a introduzir em vocês leitores, aquela semente de vontade de ler, por isso eu não posso ir fundo ao final da história ou aos momentos chaves, em respeito aqueles que ainda não conheceram essa obra, mas tudo que eu disse aqui nesse texto serve para motivá-los. Outra coisa: Kotonoha é um seinen sim. Se você é daqueles que pensa que seinens sempre são obras complexas e mirabolantes em seu ser, se pensa que só é seinen se for muito politico ou de palavras muito complexas, se engana! Kotonoha é um seinen sim e ele é voltado sim para um publico muito amadurecido sim, apesar de que também toca as audiências mais jovens, é claro. Estamos falando de um estudante e uma adulta, são dois lados de uma moeda. Não se esqueçam disso, ok?

banner-fb-214x300E para encerrar, vamos lá remeter ao Tanka do inicio e a parte de que palavras são vitais. É um jardim de palavras afinal, porque? O que temos em um jardim? Temos arvores diferentes, flores diferentes, temos vários micro ambientes que de acordo com condições climáticas, consegue se harmonizar quase que por completo. E nós como pessoas, não somos assim também? Seus sentimentos, pensamentos, você fisicamente também, tudo isso é um aglomerado de condições que te levam a produzir palavras de vários tipos, com vários efeitos. Poesia é um jogo de palavras, um jogo de mensagens boas e ruins, um tipo de conversa usando a linguagem do coração, assim como existe a linguagem das flores. Perto do final, Akizuki acaba percebendo que aquele poema ganhou um significado maior. Ele entendeu a mensagem como o coração dele quis, mesmo que na época ela não tenha falado realmente ao coração dele, o que aconteceu foi:

Se em dia de chuvas você estará comigo, será que nos dias sem chuva ou apenas com céu nublado e trovões, você vai estar também?

E foi assim que o coração explicou para a razão que ele estava amando. Uma relação muito mais que eu sinto isso e você o mesmo, pois entre os dois havia uma cumplicidade silenciosa magnifica, coisa que é sim raro, díficil, complicado, cansativo até. Vamos que palavras venenosas e perigosas podem te prejudicar na escola, matar os seus sonhos, botar sua carreira amada em risco, palavras matam pessoas também. Pessoas que dizem palavras, portanto, pessoas matando pessoas. Não só a morte física! Existem diversas mortes, e as causadas por palavras nesta obra são bem emocionais, causando um nível físico de dor a nossa querida Yukari Yukino inclusive, mas a história dela, assim como o desfecho dessa obra, eu deixo para vocês por inteiro.

E pra encerrar com chave de ouro, sinto que é minha obrigação passar pra vocês os ensinamentos super importantes de duas páginas de tirinhas depois da história. Eu acho até que é bom ler isso antes da história no caso de algumas pessoas. Lá no final, uma menina diz para Yukino que ela não gosta de ler esses poemas tradicionais, porque acha muito dificil entender eles nossa personagem passa então uma informação chave para que ela consiga ver através do que ela não gosta. Vou transcrever pra vocês!

Yukino: Primeiro vamos apreciar de verdade o texto e vamos tentar perder esse senso de “não gosto”.
Menina: ?
Yukino: Na essência, a forma de compreender as coisas não é tão diferente. vamos encontrar um ponto onde as interpretações se encontram, assim fica mais fácil.
Por exemplo…
“Amando e amando sempre, depois de finalmente se encontrar, diga-me palavras bonitas para assim durar nosso amor.
Depois de tanto tempo se amando, finalmente se encontraram, pelo menos diga-me palavras bonitas. Caso ache que nosso sentimento seja duradouro”.

NAKASHIMI, Susumu. “Man’youshuu Zenyakuchuu Genbuntsuki (1). Editora Kodansha

Menina: Aah…entendi…
Se depois de tanto tempo, a pessoa falar algo romântico, é realmente bom, né?

Para simplificar ainda mais, se depois de muito tempo algo signficativo sobre o romance for dito, significa que esse amor ainda persiste! Como um tipo de relacionamento a distância. Viu só? Absorver uma leitura vertical não é um bicho de sete cabeças! E o Man’youshuu foi usado bastante no mangá, então aos interessados ali tem a referência para buscarem depois!

Quanto a parte técnica do mangá, eu gostei, li ele bem a vontade e sem medo de que alguma parte caísse. Está com a brochura decente, mas eu vi um ou dois erros de digitação e revisão pela história, tornando a leitura um pouquinho…como se eu de repente tivesse umas pedrinhas chatas no tênis, entendem? Pra mim, a newpop fez um bom trabalho, mas bem que eu pagaria mais por uma capinha mais durinha, umas orelhas quem sabe? Bem, c’est la vie gente, não está ruim e está valendo o preço.

Gostei bastante do traço, mas no inicio tive aquele “nossa, não é tão bonitão quanto o filme”, mas depois entendi que a simplicidade dos traços e poucas evidências nos detalhes do ambiente é que ditam o sabor diferente do fruto mangá, então meus parabéns pra quem ilustrou, ótimo trabalho!

Por fim, pra quem quer comprar a edição física eu recomendo aquelas lojas de sempre: A própria newpop, loja nerdz, lumina universo e até mesmo livrarias.

Link da loja da newpop:
http://www.lojanewpop.com.br/o-jardim-das-palvaras-kotonoha-no-niwa

Infelizmente eu não consegui achar o mangá para ler nem em inglês e nem em português online, mas se alguém souber, por favor comente!

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